NO MEIO...PEDRA

Galeria Celma Albuquerque
Belo Horizonte – MG
Agosto/2002

Ao iniciar uma conversa com a ceramista Nicia Braga sobre o seu trabalho, o tom impregnado de racionalidade foi um primeiro indício. Objetivamente percorremos uma trajetória temporal a partir de 1991 quando a pedra, escolhida como referência para uma criação, transformou-se em obra. Vários artistas buscaram suas pedras no acaso das ruas e da natureza, transportando seu achados para formas de gesso. As terras mineiras utilizadas na reprodução cerâmica do que fora pedra marcaram uma transição no jeito de trabalhar de Nicia.

No momento em que se revelaram resultados modificados com as variações das temperaturas das queimas, um aprendizado emergiu, permitindo à artista novas possibilidades de cor através da manipulação da alta temperatura na transformação química do pigmento. Sim, eu pensava no transcurso da conversa, mas não existiria nenhuma motivação mais poética e/ou simbólica nesse processo gerador de descobertas por quase uma década? E, como que lendo meu pensamento, minha interlocutora prosseguiu: “Nunca fui do figurativo, nunca fui de produzir compulsivamente. Sempre me fixei na dimensão simples da manualidade do meu fazer”.

Reconheci então um segundo indício, ao ser mencionada a dinâmica da pesquisa que levou seu processo criativo ao máximo de combinações possíveis na elaboração das massas cerâmicas. Não somente as infinitas variações estruturais, mas igualmente as cores conseguidas a partir das próprias estruturas, fizeram os olhos e o coração de Nicia brilharem. Talvez não seja necessário mencionar que a “pedra” tornou-se a forma básica para a constatação dos sucessivos experimentos.

Focalizando a “pedra”, acabei ouvindo que a mesma, neste caso, “era a realização tátil de uma idéia”. Em seguida, a afirmação” a mistura da massa é uma coisa mental” irrompeu em nosso espaço de palavras. E, como um estudioso cheio de delicadeza com seu objeto de estudo, indaguei sobre os pontos cegos evidenciados pelo entusiasmo insistente com o conhecimento científico desse fazer. Aonde poderia estar localizado o sujeito Nicia misto tudo?

A palavra “domínio” atingiu finalmente a superfície. Domínio na aquisição de uma auto-suficiência sobre os limites nos quais se pode chegar com o que se propõe a fazer: “o exercício de um domínio que me põe em um lugar”, completou a ceramista.

Imediatamente, esta afirmação reverberou dentro de mim, me conectando com minha própria experiência no campo profissional da Arte. Em meio às dificuldades inerentes ao contexto cultural e artístico brasileiro, onde o profissional conta com tão poucas certezas para a consolidação de seu lugar social, reconheci que a afirmação de Nicia respaldava-se em imprevisibilidade dos resíduos que permeiam todas as matérias”

Esses resíduos motivam, no processo criativo de Nicia, a busca das “coisinhas escondidas” na cerâmica e nas pessoas. E a “pedra”, nesta altura da conversa, já tinha virado tanta coisa! Entre a palavra e a pedra, o nosso caminho havia sido traçado. Fiquei com saudades de Drummond. Acho que ela também!

A tentativa aparente de racionalizar o seu fazer revelou-me uma necessidade mais sutil: a de não construir para si mesma um lugar de acomodação, mantendo a chama da inquietação motivadora sempre viva como viva deve ser a chama da própria vida percorrida entre pedras, caminhos, sensações compartilhadas, cores resgatadas, coisinhas escondidas.  Marcos Hill, 2012

Nicia Braga Cerâmica -  Rua José Batista de Carvalho, 43

Parque das Abelhas - Tiradentes, MG, 36325-000, Brasil

niciabraga@gmail.com - Telefone: +55 (32) 3355-1613  

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